Meu novo livro fala de espelhos e fantasmas – Reflexo Oculto

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Quando um homem compra um espelho ele traz para si a natureza de seu próprio reflexo, um reflexo oculto, indecifrável, que ele não conseguirá definir onde começa o real e o espéculo. Manoel de Isaías é um homem rico e solitário, cercado por empregados que o bajulam e preso numa vida de muitos regalos e poucas alegrias. Mas tudo pode mudar quando com a morte da irmã ele passa a conviver com o seu misterioso sobrinho Ovídio e também com os mistérios ocultos num estranho e recém adquirido espelho. Será que o que está na prata deste espelho é realmente um reflexo ou o mundo aqui fora, que se tornou tão abstrato, se mostra a verdadeira face do contrário. Um livro instigante, sobrenatural, indecifrável.

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S.O.S. de mim.

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Resultado de imagem para renascer e morrer

Como salvar-se de mim mesmo. Como posso pedir socorro. Como posso que minha alma resgate de mim mesmo as atrocidades imutáveis do meu espírito. Engolir pois, um vidro de remédios colocando em seu interior um pedido de S.O.S. Deixar o vidro mergulhar em mim, em meu ácido, em minha bílis, para em seguida ser resgatado pelas mãos da minha fugaz consciência. Assim, morro e renasço, morro e renasço, morro e renasço, como um mundo de fluxos e refluxos, fluxos e refluxos, fluxos e refluxos…

Eles estão lá fora – Capítulo 6

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Quem nós somos?

Leonardo jamais pensaria que a casa do Senhor Almond estaria parada no tempo. Não somente por sua mobília no mesmo lugar a mais de cinqüenta anos, mas também pelas tumulares teias de aranha. Os quadros nas paredes pareciam fotografias em mausoléus dando a impressão que foi tirada de modelos já mortos. Leonardo e Sabrina acompanharam o garoto que caminhava pela casa deixando realmente um rastro azulado que era sua marca registrada. Agora Leonardo poderia provar de uma vez por todas o que realmente vira, através do telescópio, entre as cortinas daquela estranha casa há alguns dias atrás. Subiram um lance de três degraus para deixarem a lavanderia e adentrarem uma cozinha com seus eletrodomésticos estagnados nos anos setenta, possivelmente, a geladeira fora um presente de casamento e ocuparia aquele lugar ao lado do fogão por tempo suficiente. Avançando através de uma cortina de plástico chegaram à sala. Morsheeba levantou-se do sofá e veio cumprimentar o amigo.

— Rapaz e eu duvidando de você.

Parecia o mesmo Morsheeba. Cabelos ruivos desgrenhados, sardas por todo o rosto, roupas rotas e um jeito de andar malandro. Abraçou Leonardo aliviado e sussurrou em seu ouvido: “o rapazinho ali é um ser de outro Planeta!” Depois, convidados pelo adolescente iluminado, sentaram-se todos no sofá. Pela janela, Leonardo avistava o jardim de murinho carcomido pela fuligem, um pé de chorão excitado pelo vento e a noite a correr de vista.

“Então, vocês sondavam a casa em busca de alguma criatura estranha! Aqui está, sou eu a sua criatura estranha!”

— É necessário que você fale assim, dentro de nossas cabeças? — disse Sabrina encarando profundamente os olhos azulados do rapaz que estava sentado a sua frente.

“Desculpe, mas conversarmos por telepatia é a única forma de falarmos uma mesma língua. Vocês humanos tiveram a estranha ideia de divergirem entre si seus idiomas criando um grande problema de fronteiras…”

— Não falei! — pulou Morsheeba do sofá — Ele nos tratou como “vocês humanos”! Somente alguém que não é de nossa raça nos trataria como “vocês humanos”!

“Em nenhum momento eu mencionei ser humano!”

— Sim, nós sabemos — interpolou Leonardo — ninguém poderia emitir esta luz azulada que você emite, digo, nenhum ser humano poderia fazer esta proeza.

“Desculpe, esta luz floresce quando eu fico muito ansioso…” De repente, aquela luz apagou-se. O que os três admiraram no sofá à frente, foi um garoto completamente nu e que agora parecia normal, se não fosse pelo seu tom de pele levemente prateado, seu corpo nu sem um único pelo e seus olhos que ainda desfilavam pequenas faíscas azuis.

— Seus olhos… Er… — disse Morsheeba com seu jeito único de ser inconveniente — ainda está vibrando umas faisquinhas azuis…

“Desculpe, destas não posso me livrar, elas demonstram que ainda pulsa vida dentro do meu corpo!”

— Como podemos lhe chamar? — perguntou Sabrina.

“Mais uma vez desculpe-me, mas meu idioma, minha língua, é algo impronunciável neste Planeta azul. Nós nos comunicamos através de nossas mentes e quando escrevemos usamos ideogramas que só os mais sábios em meu Planeta conseguem decifrar…”

— Não falei, não falei! — mais uma vez Morsheeba — “Em meu Planeta” ele disse! Ele é um alienígena! Nós somos os pioneiros em fazermos contato com um alienígena — gritou excitado, mas censurado pelos dois irmãos tampou a própria boca para segurar a excitação.

“Sim, eu não sou deste Planeta azul, isso, creio, está mais do que justificado!”

— Claro, eu já deveria ter imaginado — completou Leonardo — quando o vi pela primeira vez foi através das cortinas semiabertas do seu quarto. Eu vi alguém jovem atravessando rapidamente acompanhado deste flash azul que você carrega. Depois o Senhor Almond apareceu e fechou bruscamente as cortinas. Ele estava tentando esconder você…

— Mas o Senhor Almond — interrompeu Sabrina — onde o Senhor Almond entra em toda esta história? Ele sabia de você o tempo todo, pois ele o escondia do mundo!

“Sim” — o rapaz levantou-se e caminhou até a janela, agora ele parecia triste, pequenos lampejos faiscaram através de seus pés sobre o tapete da sala — “Senhor A cuidou de mim por muito tempo — ele olhou para fora tocando o vidro da janela com uma das mãos — Ele era um Senhor de idade avançada para os padrões de seu Planeta e creio que todo este tempo comigo desgastou-o de uma forma que eu não pude reverter.”

— Desculpe deixá-lo triste — abaixou os olhos Sabrina.

“Não, menina, não há nada para se desculpar. Creio que vocês deveriam voltar para suas casas agora!”

— Espere! — retorquiu Leonardo — Tem muitas coisas sobre você que nós não sabemos. Tipo, quem realmente é você, de onde você veio já que não é de nosso Planeta, como chegou aqui, como conheceu o Senhor Almond e como aquele idoso conseguiu esconder você da humanidade por tanto tempo?

— Por favor, Leonardo — censurou a irmã.

“Eu tenho certeza que vocês três devem ter muitas perguntas. Mas assim como vocês eu também preciso de respostas para muitas das minhas perguntas pessoais.”

— Mas só me responda uma pergunta — continuou Leonardo levantando-se e se aproximando dele que ainda estava próximo da janela — por que está aqui em nosso Planeta?

“Eu estou em seu Planeta a mais de duzentos e vinte anos. Contados por este espaço de tempo que vocês humanos criaram.”

Olhares incrédulos brotaram no rosto dos convidados que ali permaneciam cada vez mais intrigados. Agora Morsheeba levantou-se e parecia irritado.

— Desculpe meu mau jeito, prateado, mas duzentos e vinte anos são muitos anos para se viver não acha? O Senhor Almond deve ter chegado aos noventa e olha o caco que se encontrava. Vendo daqui e todos devem concordar comigo, você não passa de um adolescente de no máximo quinze anos! Estou errado? Gente, por favor, me ajude, isso é possível?

Agora todos permaneciam em pé. Estavam agitados, cheios de interrogações e parecia que o garoto prateado não estava muito confortável em respondê-las.

— Vou chamá-lo de Trax! — disse Leonardo de supetão.

— Como que é? — perguntou Morsheeba com uma cara de quem não estava mais para conversas evasivas.

O garoto voltou-se e colocou uma das mãos no ombro de Leonardo assustando-o um pouco, fazendo-o até mesmo perder o equilíbrio.

“Obrigado pelo nome, gostei de Trax, parece realmente com um ideograma vindo sabe-se lá de que Planeta!”

— Eu quero que saiba — continuou Leonardo — que apesar de toda esta loucura e espero que você entenda porque pela primeira vez fazemos contato com um alienígena, podemos ser amigos e guardaremos este seu segredo. Creio que depois que o Senhor Almond ficou doente você acabou ficando sozinho — Leonardo observou aqueles grandes olhos azuis tristes e faiscantes — mas saiba que pode contar conosco!

“Eu agradeço!”

— Mas me diga uma coisa, Trax, você realmente precisa ficar preso aqui dentro?

— Como assim, Leonardo — inquiriu a irmã.

— E aí, Leonardo, vai querer levar o alienígena para onde? — perguntou Morsheeba.

— Eu estou querendo dizer que ele poderia, de repente, sair desta casa e passar a conviver conosco, quem sabe ir à escola amanhã.

“Eu sair de casa?”

— Você está louco, Leonardo! Seu irmão se estrambelhou de vez, Sabrina! — Morsheeba rodeou o garoto — Ele, ele, é todo prateado!

“Posso não ser, se acharem mais conveniente!”

Uma luz incandesceu pela sala, talvez tenha minimizado boa parte da energia do bairro, mas logo se estabeleceu. Quando novamente o garoto apagou-se sua tonalidade de pele tinha se modificado. Estava um pouco pálido para os padrões de um país tão tropical, mas estava bem mais aceitável do que aquela pele prateada que chegava a refletir o rosto dos outros garotos. “Então, como estou?” Ele girou nos próprios calcanhares para mostrar o ar de sua graça.

— Está, digamos, menos pior — adiantou-se Morsheeba — Assim, sem pelos no corpo, parece uma pessoa com câncer!

Leonardo de sobressalto olhou para os olhos tristes da irmã.

— Morsheeba, porque você não cala esta sua boca enorme?

— Está certo, está certo! O que fiz de errado? Falei alguma bobagem?

— Não, esquece, Morsheeba — adiantou-se Sabrina — Você ficou ótimo… Trax! Ficou ótimo!

“Eu creio que há algumas pessoas em seu Planeta que se diferem bastante no aspecto humano, como por exemplo, os albinos, que possuem ausência total de melanina na pele e também pessoas com Alopecia, ou seja, que não possuem nenhum tipo de pelos no corpo. Infelizmente eu não saberia fazer crescer pelos em meu corpo, não é uma habilidade que possuo!”

— Nem precisa, Trax! Você está ótimo mesmo!

— Se você irá tirá-lo de casa, Leonardo, umas roupas seriam perfeitas!

— Morsheeba tem razão, Trax, é uma exigência…

“Eu sei, meu amigo, vocês cobrem a nudez com tecidos, pois há uma diferença muito contrastante de gêneros. Mas não se preocupem, pois o Senhor A me comprou várias roupas e calçados para caso um dia eu precisasse realmente sair de casa!”

Num relance, Sabrina olhou as horas no pequeno relógio sobre o armário rústico e antigo. Assustou-se de imediato. Passavam das seis e meia da manhã e isso era um entrave. Daqui a pouco seus pais, já acordados, os chamariam para a escola e levariam um susto em não vê-los na cama.

— Leonardo, nós temos um problemão!

Morsheeba que havia acompanhado os olhos de Sabrina em direção ao relógio estatelou a mão na testa — Minha mãe vai me matar!

“Qual é o problema, Leonardo?”

— Se não voltarmos agora, teremos muitas coisas para explicar sobre nossa saída inesperada, Trax, creio que teríamos que mentir um monte para que sua história continuasse em segredo!

“Vocês seres humanos vivem de acordo com o espaço tempo que vocês mesmos criaram e por isso, estão sempre engaiolados em um instrumento que nunca erra as horas!”

— Precisamos mesmo ir, já está claro lá fora! — disse Sabrina já se encaminhando para a porta.

“Vejam, meus amigos, o tempo é uma equação quântica!”

Como aquela criatura, no qual batizaram de Trax e que para não criarmos muitos conflitos iremos também chamá-la de Trax, fez aquilo foi de deixar os três convidados de queixo caído. Trax simplesmente rasgou a realidade e puxou como uma cortina o tempo que agora estava ao seu favor. Como uma janela, Sabrina e Leonardo viram através daquela, digamos, fenda, eles mesmos saindo de casa em direção ao jardim de orquídeas de Dona Leda.

— Como assim “uma luz azulada”?

— É isso mesmo que estou lhe contando!

Foi o que todos ouviram daqueles mesmos Leonardo e Sabrina que estavam do outro lado daquele rasgo na cortina do tempo espaço.

“Vocês não podem estar aqui se estão ainda lá, prontos para virem para cá!”

Foi quando os irmãos perceberam que estavam realmente caminhando pelo jardim de sua mãe e que por um momento pararam antes de alcançar o portão. A noite voltou junto com o mesmo vento frio que havia anteriormente.

— Que loucura! — disse Leonardo olhando para o casarão do outro lado da rua.

— Loucura ou não vamos voltar para dentro e nos deitarmos, amanhã temos aula.

(Continua…)

Pensamentos no limite.

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Como explicar aos outros que há um vírus corroendo cada um dos meus pensamentos. Que há um câncer deteriorando o círculo iminente dos meus versos mais oriundos. Como explicar às pessoas que há um tumor tuberculoso tingindo de negro um canto implícito da minha prosa. Como explicar aos que me governam diariamente, que por sobre seus cadáveres passam minhas ideias de morte. Por que eles precisam de explicações? Porque eles necessitam saber o que os meus olhos tristes e cheios de amargura não conseguem dizer. Todos precisam saber que meus pensamentos estão no limite.

***

Eles estão lá fora – Capítulo 5

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O menino prateado

Antes que suas pernas travassem e um grito lancinante cortasse o silêncio da casa, Leonardo observou com olhos arregalados a irmã às suas costas.

— Você está louca, Sabrina!

Caraca, pensei que você fosse desmaiar!

— Está bem, eu levei um susto de trincar meus dentes, mas o que você está fazendo de madrugada acordada? Nem de pijama você está?

— Eu estava na sala escutando música no celular, estou tomando uns remédios fortes que me tiram o sono!

Leonardo lembrou-se dos problemas com a irmã. O câncer, o tumor, a lesão. Sentiu-se um egoísta e pela primeira vez encarou-a.

— Espere! Não me lance este olhar de pena, por favor! Onde você estava indo Leonardo? Não era para estarmos dormindo? Amanhã temos aula.

Leonardo explicou para a irmã toda a história do encontro que deveria ter acontecido com o amigo Morsheeba e que preocupado com ela acabou esquecendo. Também lhe disse que algo estranho tinha acontecido esta madrugada na soleira da casa do velho Almond.

— Como assim “uma luz azulada”?

— É isso mesmo que estou lhe contando — caminhavam agora para fora de casa, saindo pela porta dos fundos, atravessando o jardim de orquídeas de sua mãe dirigindo-se para o portão — foi uma descarga gigantesca que deveria ter acabado comigo! Eu fui jogado longe! Pense bem, da varanda do Senhor Almond eu fui parar lá do outro lado do quintal, perto do muro. Eu fiquei com uma estática azulada por alguns minutos rodeando minha cabeça e minhas mãos, a mesma estática que vi esta noite rodeando a maçaneta.

— E você ficou preocupado com o Morsheeba.

— Isso. O Morsheeba é maluco o suficiente para ter tentado entrar na casa sozinho e pode estar lá dentro neste momento.

Os dois irmãos pararam bem em frente do casarão. Engoliram em seco e ficaram alguns minutos estagnados duvidando se era uma boa ideia tentar entrar. Leonardo verificou algo que pelas lentes do telescópio não tinha notado: o portãozinho estava aberto. Caminharam em direção ao quintal e se camuflaram na escuridão do jardim.

— Mas você também disse que ele pode ter vindo até aqui, encostado na maçaneta, levado a descarga e ter saído correndo extremamente assustado, assim como você!

— “Assim como você” — imitou-a Leonardo — do jeito que você fala parece que eu corri feito um bebê chorão!

— E não foi?

— Não, claro que não, a descarga me assustou sim, mas eu corri para dentro com receio de estar mais ferido do que aparentava — caminharam para o lado da casa, distanciando-se da varanda — Olhe!

Leonardo abaixou-se e segurou entre os dedos uma guimba de cigarro caído numa pequena poça de lama. Estava pouco tragado, alguém o tinha largado sem vontade de terminá-lo por inteiro.

— Puxa, Leonardo, você está bancando um Sherlock imbecil! Este cigarro alguém pode ter atirado lá de fora!

— Nós não estamos trabalhando aqui com hipóteses? Que possivelmente o Morsheeba pode ter estado aqui e ter recebido a descarga, ou não? Que ele possa ter chegado aqui fumando e ter largado o cigarro no chão por ter visto algo estranho, ou não?

Sabrina tinha-se adiantado e já estava nos fundos do casarão olhando com curiosidade o poço. Abriu com cuidado a porta do galpão mostrando um ambiente velho e mal cheiroso, com várias ferramentas penduradas, além de um depósito com diversos jornais e revistas. Ela não se demorou em entrar.

— Sabrina, você está maluca? Entrar aí não é uma boa ideia!

— Espere, empreste a lanterna.

Ela mirou o facho de luz na parede de madeira onde havia as ferramentas penduradas. Eram enxadas, ancinhos, pás e alguns outros menores, como serrotes e martelos. No chão estavam muitos jornais, assim como revistas de várias épocas, a maioria picotadas com alguns recortes ainda caindo de suas páginas. Sabrina mirou também o facho de luz para outra parede e deparou-se com um enorme quadro branco, onde vários recortes estavam grudados com fitas adesivas. Leonardo tomou coragem e também entrou. Ambos divisaram, com a cadência da luz da lanterna, várias manchetes com os mesmos temas: óvnis, alienígenas e outras aparições extraordinárias…

Notícias sobre discos voadores nos EUA provocaram dezenas de estranhas aparições de objetos não identificados no Brasil.”

Suposto Disco Voador é fotografado no interior do Rio Grande do Sul.”

O Diretor J. Edgar Hoover enviou um relatório do FBI (polícia federal dos EUA) sobre discos voadores no estado do Novo México.

Em 1947, na cidade de Roswell, no Estado norte-americano do Novo México, um óvni supostamente caiu em um rancho e foi capturado pela Força Aérea dos Estados Unidos.

“Imagens parecem mostrar um objeto não identificado aterrissando dentro de um vulcão ativo.”

Moradores de Quixadá (CE – Brasil) afirmam ter feito contato com extraterrestres.”

OVNIs / UFOs são avistados em Parnamirim, RN – Brasil.”

Sonda que orbita Ceres  apresenta defeito – NASA muda de opinião sobre luzes misteriosas.”

Poderiam fotos tiradas de um submarino em 1971 estarem provando a existência de visitação extraterrestre?

Seis acidentes com OVNIs / UFOs que ocorreram antes de Roswell.”

OVNI em forma de cubo é, alegadamente, fotografado no Texas – EUA.”

NASA filma objeto ainda não identificado entrando na atmosfera terrestre.”

Contatos extraterrestres em Sorocaba, SP – Brasil.”

— O velho era um neurótico.

— Não Sabrina, creio que ele não era. Eu tenho certeza que vi alguém com o Senhor Almond naquela espiada rápida pelo telescópio. Esta mesma criatura que vi deixou um rastro de luz e foi justamente isso que me intrigou.

— Um rastro de luz azulada?

— Sim, agora que você mencionou, poderia ter sido esta mesma estática azulada.

Sabrina desligou abruptamente a lanterna após escutarem um barulho. Ficaram dentro do galpão em silêncio esperando a aparição de alguém. Era sem dúvida o barulho de uma porta se abrindo que ambos escutaram na calada da noite. Talvez a porta dos fundos do casarão. Então, apenas aguardaram, pois alguém haveria de aparecer.

Aos poucos uma luz se acendeu, ou melhor, uma luz começou a irradiar. Foi lentamente aumentando, até tornar-se um grande holofote azul no qual banhou por completo o interior do galpão escapando pelas diversas frestas da madeira. Os olhos de Sabrina e Leonardo se arregalaram. Ambos ficaram petrificados de medo. O garoto ameaçou correr, mas a irmã segurou-o pelo colarinho mantendo-o parado e em silêncio. A luz continuava num eterno crescente, tomou todos os fundos da casa, além de cegar por completo as duas almas aflitas que se mantinham dentro do galpão. Sabrina tomou a frente do irmão empurrando-o para trás com toda a coragem que conseguiu armazenar em seu peito. Ela deixou aquele depósito de bugigangas protegendo os olhos com o braço esquerdo. Foi caminhando lentamente e aspirou uma frase sem saber ao certo se ela surtiria o efeito esperado.

— Olá, quem está aí? Desculpe se fomos intrometidos, já estamos indo embora…

A luz quase actínia, de uma cor azul fúlgido, começou a emitir raios menos cintilantes a ponto de Sabrina poder abaixar o braço que mantinha diante dos olhos. Leonardo apareceu na porta do depósito e também pôde ver, junto com a irmã, uma criatura aparecendo quase por completo no meio da luz que ainda se mantinha. Era uma forma minimalista, que na extensão daquele lumião parecia apenas um esboço de uma figura humana.

— Olá — continuou Sabrina — Desculpe-nos!

“Olá”!

Era uma voz mansinha que lhes falou dentro de suas cabeças.

— Você também ouviu isso, Sabrina?

— Sim, na verdade, eu senti…

“O que querem aqui?” — a voz continuou a inundar-lhes o cérebro. Mas eram sons serenos, palavras mansas, que não feriam ou mesmo incomodavam.

— Eu e meu irmão viemos à procura de um amigo que, possivelmente, esteve aqui em sua casa? Por acaso você tem visto ele? O nome dele é Morsheeba!

“Morsheeba. Amigo de vocês. Sim eu o vi!”

A luz finalmente cessou. O que ambos puderam realmente constatar era ainda uma fraca forma luminosa, um garoto em meio a um halo azul. Não havia cabelos no rapaz, isso Leonardo notou, assim como notou que ele parecia estar nu, mas como um anjo visto nas suas histórias em quadrinhos não havia qualquer vestígio de órgãos sexuais. Então, como saberia que era um rapaz? Sim, pela voz e pelo formato do corpo podia apostar que estava conversando com uma criatura luminosa masculina.

“Eu os convido para entrar, assim como tenho o amigo de vocês como meu convidado.”

— Como saberemos que você não é perigoso? — ousou perguntar Leonardo.

“Não saberão. Terão que confiar em mim.”

— Confiar em você? — repetiu Sabrina enquanto percebia que sua lanterna apagara-se de repente. Tinha mantido a lanterna este tempo todo acesa iluminando o chão, com certeza as pilhas se descarregaram por completo.

O garoto que pulsava luz não respondeu, apenas deu passagem para que os irmãos entrassem pela porta dos fundos do casarão do Seu Almond. Não haveria o que fazer. Se fosse perigoso entrar, também seria perigoso estar ali fora. Correr talvez fosse à maneira mais estúpida de fugir desta situação. Então, apenas caminharam para dentro passando bem próximo do garoto iluminado. Sabrina descobriu que além dele ter uma bela face de menino grande, também exalava um gostoso perfume de baunilha.

(Continua na próxima semana…)

Eles estão lá fora – Capítulo 4

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Morsheeba

O que aconteceu com o garoto muçulmano de olhos tristes e de corpo magro como uma panqueca de carne? Apesar da chuva que caiu naquela noite, uma tempestade de alguns bons minutos, Morsheeba foi sim ao encontro em frente ao armazém Almirante. Conto aqui em detalhes o encontro que não houve porque foi de muita importância Morsheeba ter ido e sozinho ter se deparado com tão inesperado acontecimento.

Quando o garoto chegou, a chuva caia finíssima. Gelada pareciam agulhas na pele lisa do rosto sardento. Morsheeba se esquivou embaixo da marquise do mercado. Acendeu um cigarro, um ato nefasto que fazia escondido e ali, embaixo da noite escura e fria, era um dos melhores momentos.

Quem o observasse de longe, veria um rapaz novo, bem encapotado, escondido na sombra escura da marquise com auréolas de fumaça saindo de sua boca. Com uma das mãos no bolso, Morsheeba apenas esperava. Diante de alguns barulhos ao longe ou algum moribundo caminhando por ali, seus olhos se voltavam num istmo alarme. O rapaz tinha certa proximidade com a noite. O escuro, a chuva numa corrente finíssima vista pelos holofotes dos postes, os bueiros dilatados bafejando uma nuvem mal cheirosa, cachorros rondando os lixos, alguns mendigos carregando seus fardos noturnos, esses elementos notívagos não o assustavam.

Mas Leonardo estava demorando, disso ele tinha certeza. Não queria ter que acender outro cigarro ou suas roupas se contaminariam com o cheiro de nicotina. Sua mãe, já desconfiada, descobriria seu vício inoportuno. Ele caminhou de um lado para o outro várias vezes. Numa dessas andanças impacientes, quando chegou ao fim da marquise mais uma vez assustou-se com um Senhor grisalho, de pele negra, que com um cassetete na mão barrou-lhe os passos.

— Então garoto, vai me dizer qual é o plano ou devo ligar para a polícia agora mesmo?

— Plano, que plano, meu senhor?

— Estou lhe observando a mais de uma hora, se não estiver esperando seus amigos para assaltarem o armazém, você é um imbecil de permanecer sozinho aqui nesta noite fria e chuvosa!

— É, sou um imbecil, devo ser. Agora se me der licença…

— Darei, assim que me disser o que realmente está fazendo aqui!

Morsheeba olhou por cima do ombro do homem imaginando ler uma placa.

— É verdade, estou lendo daqui: “Proibido marcar encontros usando o Mercado Almirante como ponto de referência!” Puxa, eu lhe peço perdão, “seu guarda”!

— Não brinque comigo, garoto. Posso ligar para a polícia agora mesmo.

Morsheeba jogou o resto do cigarro no chão, em frente ao vigia noturno. Com o pé direito esmagou o toco que caíra fumegante no piso molhado.

— Não irá precisar! Já me entediei por aqui e meu amigo do colégio não virá! Tenha uma boa noite, “seu guarda”!

O rapaz caminhou para longe enquanto o vigia noturno voltava para sua guarita. Morsheeba irritou-se com Leonardo, mas no minuto seguinte achou que poderia ter acontecido algo grave, já que o amigo era o mais interessado em estar no encontro. Mesmo assim, Morsheeba caminhou pela rua de Leonardo. O Mercado Almirante não era longe do bairro de Albuquerque por isso, o sardento rapaz parou em frente à majestosa residência do Senhor Almond e não conseguiu evitar acender mais um cigarro.

Não havia nada de interessante na casa. Um sobrado enorme, escuro, um jardinzinho mal tratado, árvores depositando suas folhas outonais. Aproximou-se do portãozinho e arrastou-o para dentro desenhando sulcos mais profundos no chão. Morsheeba olhou para todos os lados e lançou a guimba de cigarro para longe. O toco fez um risco fumegante no ar e apagou-se numa poça de lama próxima. O garoto colocou as duas mãos nos bolsos e seguiu o caminho de pedras até a porta. Olhou novamente a redondeza, agora tomando cuidado para que nenhum vizinho o flagrasse de suas janelas. Já deveria ter passado da meia-noite, amanhã ainda era dia de se trabalhar, estava frio e chuvoso. Ninguém se atreveria em ficar na janela observando a rua em frente. Por certo, Morsheeba agradeceu por não ter ninguém nas janelas observando-o, pois foi lançado para longe em meio a pequenas rajadas azuis assim que tocou na maçaneta da porta. Mas não caiu sobre a grama ou mesmo sobre a quantidade absurda de folhas mortas, ficou suspenso no ar, com estalos azuis ao redor do corpo eletrificando seus cabelos e criando pequenas agulhadas pelo corpo. Ele pensou em gritar. Mas manteve-se quieto quando a porta da frente se abriu e lentamente sentiu-se levitando naquela direção. Olhou para baixo e avistou a alguns centímetros de si o caminho de pedras, depois os três degraus de madeira e finalmente o assoalho da varanda. Ergueu os olhos e olhou para dentro do sobrado. A porta permanecia aberta e em seu interior, uma forma luminosa tinha a mesma chama azulada que o mantinha suspenso. Morsheeba desta vez gritou, mas como num sonho, o som de sua voz travou no fundo da garganta. Seu corpo foi puxado com violência para dentro e a porta do sobrado do Senhor Almond encerrou-se para a noite fria e chuvosa que acontecia aqui fora.

depressao

Como se escutasse um grito num pesadelo distante, Leonardo acordou.

“Morsheeba”!

Lembrou-se do amigo e olhando no relógio verificou que já passava das duas horas da manhã. “Droga! Merda!” Praguejou enquanto empurrava o telescópio para perto da janela. Olhou pelas largas lentes o outro lado da rua. Verificou por todos os lados no bairro se havia sinal de Morsheeba. De repente ele poderia ter cansado de esperar em frente ao mercado e ter vindo até o seu portão. Não! Realmente Leonardo não estava raciocinando direito. Deixara o rapaz esperando por mais de duas horas, ele simplesmente deve ter desistido e ido para casa, para debaixo dos cobertores onde estaria bem mais quente. Voltou as lentes do telescópio pela última vez para o sobrado em frente. Focou as lentes na varanda e, por conseguinte, em cada detalhe no frontispício da residência. Parou por um instante quando notou que apesar da escuridão ter tomado toda a extensão do enorme casarão do velho Almond, a maçaneta da porta brilhava. Era um brilho fraco, que somente as lentes poderosas do telescópio poderia captar. Era um brilho azulado, o mesmo brilho que refulgiu por todo o seu corpo quando fora arremessado para longe ao tocar naquela estranha maçaneta. Aquilo era estranho. Alguém entrara na casa ou alguém tentara entrar na casa acabando por ser lançado para longe também. Será que Morsheeba acabou indo até o sobrado? Será que por algum motivo ele achou que Leonardo poderia ter marcado em frente à casa do velho Almond e não no Mercado? Leonardo criava essas perguntas por ser indiscretamente distraído. Quando alguém se demorava num compromisso, a primeira dúvida que surgia era se ele realmente estava esperando no lugar a pessoa no lugar certo. Quem sabe esta dúvida poderia ter passado pela cabeça de Morsheeba.

Vestiu um tênis e colocou a calça por cima do pijama. Desceu as escadas elevadas do sótão com o maior cuidado que poderia tomar. Somente o estampido brusco que as escadas deram ao se esticarem no chão que o preocupou um pouco. Desceu lentamente apurando os ouvidos. Ninguém em primeira instância havia acordado. Caminhou atravessando a cozinha para sair pela porta dos fundos. Testou a lanterna que soluçou um pouco, mas acendeu, despejando um facho luminoso nos ladrilhos, foi quando voltou a desligá-la que ouviu alguém sussurrar-lhe pelas costas: “Aonde você vai?”

(Continua na próxima semana…)

Eles estão lá fora – Capítulo 3

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Depois de caírem todas as gotas possíveis.

Não há como fugir das responsabilidades acadêmicas quando se é um adolescente de dezesseis anos. Mesmo Leonardo tendo passado por uma das experiências mais incríveis da sua vida, mesmo que ele tivesse visto e constatado aquilo que elucidou de uma só vez suas dúvidas mais profundas, não dá para fugir do colégio em plena segunda-feira. Por isso, naquele dia onde uma garoinha caia incansavelmente pela cidade, Leonardo contou tudo a Roger Morsheeba, seu inseparável amigo muçulmano.

Morsheeba esboçou um largo sorriso que permaneceu no seu rosto na espera que tudo aquilo fosse uma tremenda piada. Percebendo a inquietude do amigo, Morsheeba desanuviou o pretenso sorriso e lhe perguntou se havia como provar que um alienígena vivia do outro lado da sua rua.

— Eu não lhe disse que era um alienígena…

— Mas também não disse que não era. O seu vizinho mantendo uma criatura luminosa presa dentro de casa, isso sim é por demais estranho… — divagou Morsheeba por alguns instantes — Alguém mais sabe?

— Sabrina sabe, mas não deu muita importância.

— Mas agora que você realmente viu algo, porque não reafirmar sua história com ela?

— Não sei, o clima lá em casa não está legal, estão escondendo alguma coisa de mim!

— Puxa, que merda, justo agora que você precisava da ajuda dela.

— Eu pensei que você poderia me ajudar…

— Para falar a verdade, acho isso tudo muito estranho!

— Certo, você também não acredita em mim…

— Não é isso, podíamos ir dar uma olhada depois da escola, o que acha?

— Não dá, muito claro ainda. Na última vez eu sai quase de madrugada, não havia uma alma viva nas ruas. Imagine se algum vizinho me flagra fuçando a cada do Senhor Almond.

— Então sairemos de madrugada!

Um alarme soou monótono e muito alto. Grupos de alunos se reuniram e começaram a preencher os corredores. Antes que fosse cada um para sua sala, Leonardo puxou Morsheeba para um canto e lhe disse:

— Encontre-me hoje em frente ao armazém Almirante próximo da meia-noite.

— Está bem, darei um jeito.

As aulas após o intervalo começaram inquietantes, ansiosas e extremamente sem sentido algum.

Quando Leonardo chegou da escola havia um clima pesado em sua casa. Seus pais estavam no sofá e desconsolados o chamaram finalmente para conversar. Procurou com os olhos a irmã, mas não a encontrou. Ela tinha chegado ao ônibus escolar alguns minutos antes do seu, mas não se encontrava na sala neste instante.

— Certo — adiantou-se — irão me contar o que está acontecendo?

Uma notícia ruim sempre é uma notícia ruim. Quando a notícia permeia sua própria vida aí ela parece ainda pior, mais caótica, mais sem sentido. Leonardo imaginou em sua mente ainda imatura que um câncer na família era como um episódio dramático em sua série de TV preferida. Que ter alguém doente na família era um drama perpendicular a outros tantos dramas acometidos pelo destino a futuras famílias de classe média baixa ou que essas intempéries da vida ele seria apenas um mero espectador. Mas não. Havia um câncer nos ossos de sua irmã mais velha e sua família sofria com isso. Não disse uma única palavra. Apenas subiu à sua solidão do sótão que não era mais sótão, deitou-se inerte na cama e negou-se a chorar.

Antes que um adolescente de dezesseis pudesse notar sua vida desmoronando, uma chuva começou a cair como a meteorologia havia planejado e os passos miúdos de sua irmã começaram a ecoar pelo corredor. Ela estava vindo. A pessoa neste momento que Leonardo menos queria ver era sua irmã. Sentia que seus passos se aproximavam e que em poucos minutos ela puxaria as escadas suspensas. Estava com medo dela, de sua doença, medo de não poder suportar olhá-la sem sentir pena, sem fraquejar. Mas sua mãe dissera que era um estágio inicial, que ainda haveria chances e mais chance, que a palavra “câncer” era muito forte, que podíamos usar, quem sabe, um “tumor”, ou melhor, ainda, uma “lesão”.

Ouviu-a caminhar e, por conseguinte, parar. Esperou o barulho gritante das escadas suspensas, mas por algum motivo ela não as puxou. Poderia imaginá-la em frente a entrada do sótão e senti-la também com medo. Os passos de repente começaram a se distanciar. Ela não iria subir. Leonardo sentiu-se aliviado e envergonhado. Permaneceu deitado como um feto na cama, o rosto comprimido evitando as lágrimas. O som dos passos misturou-se aos ruídos das gotas de chuva e em pouco tempo se perderam. Leonardo acompanhava gota a gota a chuva que escorregava pela calha e era quase insuportável. Os barulhos formavam uma cadência de ruídos absurdos que aos poucos se transformavam em vozes, vozes essas que gritavam que tudo a partir de agora giraria em torno de um câncer, de um tumor, de uma lesão.

Enquanto dobrava-se na cama como se sentisse cólicas, o tempo foi passando, a chuva amenizando, as gotas caindo uma a uma bem devagar. Havia uma máscara de dor em seu rosto e enquanto agonizava pelo sofrimento da irmã, esqueceu-se completamente do compromisso em frente ao armazém Almirante.

(Continua na próxima semana…)

Eles estão lá fora – Capítulo 2

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Almond e a lenda do menino prateado

Houve uma movimentação em frente à casa do velho Almond naquela tarde de outono. Leonardo direcionou seu telescópio para a turba que fervia próximo ao quintal do idoso, mas desistiu. Eram nucas e rostos absurdamente aumentados, realmente não precisava ver isso. Então, desceu do seu quarto isolado e ganhou a rua, atravessando-a e mantendo-se quieto próximo ao meio fio. Observou uma ambulância estacionada com giros rápidos de luzes vermelhas e azuis, imaginou que algo de muito sério estava acontecendo por ali. Ousou aproximar-se e viu que da porta da frente da casa dois para-médicos traziam o Senhor Almond deitado sobre uma maca. Parecia não estar nada bem.

Houve uma agitação geral. Leonardo ouviu uma vizinha confirmar a um dos para-médicos que o velho Almond morava sozinho desde que sua esposa falecera.

— Mentira! — gritou uma voz abafada.

Leonardo esvaziou o peito e segurou a própria boca com as duas mãos.

— O que foi que você disse, garoto? — perguntou um gordo senhor que morava a umas duas quadras além da sua.

Leonardo enrubesceu, envergonhou-se da própria voz. O que pôde fazer foi apenas sorrir para aquele corpulento homem, que o ignorou assim que a maca passou bem perto de seus joelhos tortos. Alguns vizinhos ainda continuaram próximos da casa do velho Almond mesmo depois da ambulância zarpar gritando pelos quarteirões do bairro de Albuquerque. O garoto recostou-se próximo de uma enorme figueira e apenas esperou. Aos poucos, os vizinhos foram se dispersando. Bem aos poucos. O sol foi desaparecendo sobre o telhado das casas e por pouco, impaciente, Leonardo não voltara para dentro. Mas manteve-se firme. Agora, com a rua vazia, próximo ao jardim maltratado do velho, o rapaz conseguiu observar por completo o que, pelo telescópio, era quase impossível. A casa a sua frente parecia desfalecer junto com o seu morador mais antigo. As árvores, quando não mais podadas, caiam sobre o telhado e seus ramos cobriam todo o jardim, escondendo uma calçada de pedras que estavam sob os seus jovens pés. As janelas da frente, sempre fechadas, eram tristes olhos e suas cortinas empoeiradas encerravam para sempre uma história, que por ventura, fora escrita daquela porta para dentro. Pois Leonardo ficou observando aquela casa por um bom tempo. Talvez por um espaço de uma hora e meia. O importante é que ver aquela casa em seus mais recônditos detalhes enfrentá-la assim encarando-a de frente e tentando ouvi-la respirar, o que realmente ouviu foram passos vindos de dentro dela.

Pensou ter ouvido, pelo menos. Não vamos dar a ele todo esse crédito. Pois na rua, aquela hora da tarde, muitos barulhos ecoavam pelos corredores mais distantes do bairro de Albuquerque. Mas Leonardo jurou, por alguns instantes, ter ouvido alguns sons vindos de dentro da casa. O velho encanamento, quem sabe. Pássaros sobre o forro voltando depois de alimentarem-se. Mas os sons eram muito parecidos com passos. Pés caminhando por encarquilhados assoalhos. Leonardo ousou caminhar por entre os jardins empobrecidos, pelas gramas altas do velho Almond. Arrastou um portãozinho que parecia um pente de ossos arranhando o chão já machucado. Aproximou-se da porta, tão torta e morta, que caída para o lado parecia que se arrastaria caso fosse aberta também. Leonardo permaneceu ali por algum momento e sob a varanda do velho Almond apurou os ouvidos tentando escutar mais alguma coisa.

Ao encostar a mão na maçaneta da porta, certo de que poderia entrar, Leonardo sentiu um choque tão forte que num repentino soco foi lançado por cima do portãozinho caindo no meio das folhas mortas do jardinzinho. Não se lembrava de ter levado em toda sua vida um choque tão violento e tão dolorido. Permaneceu caído entre as folhas sem reação alguma. Seus cabelos da nuca tremelicavam e pequenos raios azuis ainda passavam pelo tampo de sua minúscula cabeça. Depois que seu corpo parou de tremer, levantou-se abruptamente cercado de folhas por todos os lados. Deixou que seu coração descompassado tomasse o ritmo de seus passos, então correu como um louco de volta para o seu solitário sótão, digo, quarto de dormir.

 

Quando sua irmã foi procurá-lo já no começo da noite, Leonardo estava deitado sobre a cama cochilando. Ainda segurava o braço direito que por vezes tremia involuntariamente e sentiu que sua irmã aproximava-se. Ela acordou-o de uma inércia esquisita e avisou-o do jantar. Depois caminhou até o telescópio fingindo importar-se com o objeto olhando por ele sem mesmo focar suas lentes. Ela parecia triste. Leonardo levantou a cabeça tentando abrir os olhos cansados.

— Você… você está bem?

Ela voltou a cabeça para ele e seu semblante não parecia ser de alguém feliz.

— Eu vim chamá-lo para o jantar, você vem?

— Eu não sei… você está legal mesmo? Parece que chorou…

— O que achou da morte do velho Almond?

— Ele não morreu, Sabrina, quando a maca passou por mim eu vi que seu peito subia e descia, apesar dos tubos de oxigênio.

— Não sei, papai falou que o velho tem mais de noventa anos e que depois que sua esposa faleceu, ele jamais se cuidou. Acha que sobreviverá?

— Eu não sei, espero que sim. Avise mamãe que estou sem fome, vou tomar um banho e ficar por aqui mesmo.

— Está bem, o clima está meio péssimo lá embaixo mesmo…

— Como assim… péssimo? Aconteceu alguma coisa que eu não sei?

— Vai ficar aqui sozinho de novo vigiando aquela casa estúpida?

— É, talvez. Avisa a mamãe para mim?

— Seu chato!

Ela desceu do sótão, pareceu a Leonardo que ela chorava.

 

Leonardo desceu a rampa que se alongou e formou alguns degraus. Era de madrugada e no escuro da noite era quase impossível manter o silêncio. Os degraus desceram sonolentos, mas fizeram um estampido irritante quando tocou o chão. Sua mãe apareceu na cozinha enquanto ele caminhava pela casa pé ante pé. Ela pareceu não vê-lo, mas uma mãe sempre consegue perceber tudo que acontece ao seu redor.

— Não quis jantar, não é mesmo?

— Pois é… — Leonardo colocou a cabeça para dentro da cozinha — agora me deu fome!

— Não se esqueça de prender bem a porta do sótão, da última vez ele desceu durante a noite e assustou todo mundo — ela se aproximou e beijou-lhe a testa, tinha olheiras e seu semblante parecia cansado e distante — da próxima vez que eu chamá-lo para jantar, apenas obedeça!

— Pode deixar, mãe!

Leonardo verificou se ela tinha realmente voltado para o quarto. Retirou sua lanterna do bolso do casaco e acendeu-a mirando o facho luminoso para o chão. Verificando que funcionava, desligou-a novamente. Suspeitou ter visto alguém ainda perambulando pelo vazio escuro da casa. Esperou. Esperou mais um pouco. Ninguém. Poderia ainda ser barulhos de sua mãe aprontando-se para deitar. Pegou as chaves da porta, abriu-a e ganhou as ruas. Leonardo observou o bairro silencioso, as auréolas dos postes focando o asfalto, os grilos em suas sinfonias, alguns cães que latiam sem sentido e carros cruzando a rodovia lá longe. Atravessou a rua e esperou para ver se nada perturbaria sua entrada através do portãozinho do Senhor Almond. Ligou a lanterna e direcionou-a para a grama alta, depois para a varanda e em seguida para a soleira da porta. Não, não encostaria naquela maldita maçaneta de novo. Dirigiu o facho de luz da lanterna para o lado esquerdo da casa e percebeu que havia um beco estreito que levava para os fundos do quintal. Contornou o jardim e sob seus pés as folhas faziam barulhos cortantes na noite escura. Contornou a casa sempre mirando a luz da lanterna para o chão. Caminhou sorrateiramente ganhando os fundos da casa. Havia um galpão abandonado, além de um poço lacrado com várias tábuas mofadas e um jardim de flores mortas. Nos fundos do sobrado havia uma porta, como era de se esperar. Uma porta dos fundos com suas telas anti mosquitos e suas portinholas para cachorros. Leonardo tentou a maçaneta. Tocou-a várias vezes com a lanterna, depois com a ponta dos dedos e por fim girou-a. Trancada, claro. Iluminou através da janela o interior da casa. Era uma espécie de lavanderia, com um tanque, uma máquina de lavar bem usada, um armário cheio de vidros vazios de conserva e uma parede forrada de ferramentas. Jogou a luz da lanterna ainda mais longe, subindo dois pequenos lances de degraus. Acabou, assim, iluminando um par de olhos que o observava acima dos lances seguintes que levavam ao interior do sobrado.

(Continua na próxima semana…)

Sandálias.

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“A Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia.” Entre um desassossego e outro, Pessoa nos resumiu uma forma de existência. A Decadência é uma das formas de se complementar a ausência. O que sobra de uma consciência que se foi, senão sua ausência? A ausência se transforma em algo sólido, quase a ponto de se sentir, como se naquele espaço vazio ainda houvesse uma parte pequenina de alma. Isso justifica as sandálias de meu pai ainda próximos da porta, onde minha mãe as mantêm jeitosinhas. O que dói são as ausências marcadas nos espaços onde ainda permanecem as marcas vazias. Marcas de que um dia houve um pai, houve uma pessoa. De que um dia alguém pousou ali uma consciência, coletiva ou individual. Não haverá pai nos meus próximos aniversários, para falar a verdade, não haverá pai nos próximos dias. Sua marca ficou ali, próximo da porta, naquele par de sandálias jeitosinhas.

***

Eles estão lá fora – Capítulo 1

Através das lentes de um telescópio.

Era uma atitude ridícula, com toda certeza e ele não se orgulhava nada disso, de forma alguma. Ele morava num sobrado pequeno, mas confortável, que além de dois andares havia uma apertada edícula formando um quase terceiro andar. Um viés entre o forro e o telhado, onde se via escapar fios e encanamentos. Leonardo não gostava que chamassem seu espaço de sótão, jamais admitiria dormir num sótão, por isso ainda gostava de vê-lo como um quarto. Seus pais com o tempo deixaram de se importar. Se ele queria arrumar suas coisas em um sótão, que arrumasse. O cômodo onde ele realmente deveria dormir acabou virando um depósito de coisas velhas, não havia mais volta.

Leonardo passava horas em seu “quarto” sentindo-se muito bem sozinho e sem ser percebido por ninguém. Ainda mais com seu mais novo instrumento, um pedido feito a muitos aniversários e que neste ano chegou. Um telescópio. Jamais imaginou que ganharia, mas como de uns meses para cá começou a deixar de lanchar no colégio para economizar, seus pais se comoveram com a atitude e acabaram comprando. Leonardo jura que não foi intencional a atitude de economizar, que realmente economizaria por anos, se fosse preciso, para ter o digno instrumento. Sorte que não precisou.

Não era um telescópio poderoso, digamos de passagem, mas era um astronômico refrator a ponto de ver um pouco das crateras da Lua ou algumas pontas de estrelas caindo do céu. Estava posto sobre um tripé de alumínio mantendo-o nas mais diversas alturas possíveis, apontando tanto para o Universo quanto para o outro lado da rua, um ponto estratégico que nas últimas semanas era o que mais estava lhe interessando.

Leonardo estava observando o vizinho já fazia alguns dias. Era uma residência suntuosa e velha do outro lado da rua que pertencia, talvez a séculos, ao Senhor Almond. O velho Almond era um idoso arcado no peso de uma avançada idade. E quando se falava em avançada idade, coloque na ponta do lápis alguns bocados de anos. Sofria, quem sabe, de uma terrível dispnéia, por isso, pouco saia de casa e quando saia arrastava-se arcado sob uma coluna doente. De certa forma, seria um vizinho normal. Um idoso fundador do bairro como vários outros que povoavam a região. Seria realmente um vizinho normal caso Leonardo não jurasse ter visto outra pessoa habitando aquele mausoléu que chamavam de casa. Um jovem, talvez. Não podia ter certeza absoluta do que vira, mas era incontestável que havia outra pessoa bem mais jovem habitando a casa do outro lado da rua. Normal? Sim, seria normal se esta suposta pessoa jamais tivesse colocado os pés para fora e que poucos vizinhos ou talvez nenhum, soubesse da existência daquele estranho visitante.

Sabrina, irmã mais velha de Leonardo, achava tudo uma besteira da grossa. Ora, um rapaz que morava com o Senhor Almond e que jamais fora visto fora de casa? Impossível! Uma hora todos acabariam sabendo da história do “rapaz mantido em cativeiro por um idoso maluco!” E o Senhor Almond era o quê? Um velho doutor nazista mantendo um jovem prisioneiro judeu para devidas experiências em pleno século vinte e um?

— Quem sabe, ora… — ponderou Leonardo freneticamente.

Mas Leonardo, além de ter adquirido esta mania de espionar todo o Universo, inclusive o bairro, também lia muitos quadrinhos, por isso, a irmã já esperava dele momentos malucos e suposições estapafúrdias.

Foi num único instante que apontando seu telescópio para o outro lado da rua, como raramente fazia, viu o vulto brilhante. O velho Almond se mexia pela casa com uma lentidão irritante e uma das cortinas dos quartos de cima estava aberta. Leonardo, através do telescópio, viu com exatidão quando o ancião chegou até o andar de cima, aproximou-se da janela semi-aberta e arrastou as cortinas com violência colocando-as no lugar. Foi nesse ínterim, que através das lentes oblongas do seu instrumento astronômico, Leonardo observou o jovem de relance. Observou ele correndo de um extremo ao outro de sua visão periférica, no exato momento em que as cortinas eram fechadas cerrando o compromisso daquele quarto com o mundo lá fora. Era um adolescente. Tinha quase certeza disso. Quando caminhou rápido para fugir do quadrado fúlgido que era a janela, deixou um rastro brilhante. Loucura? Sim, sua irmã Sabrina também achava, mas preferiu que ela fosse a única a saber ou haveriam muito mais pessoas a achá-lo um sonhador lunático devorador de comics americano.

Conversou mais uma ou duas vezes com a irmã sobre o assunto, mas ela era firme em dizer que se o velho Almond mantinha um jovem sob um cativeiro, uma hora ou outra isso chegaria às manchetes dos jornais. Havia no bairro muitos fofoqueiros que fariam de tudo para este tipo de notícia se espalhar.

— Mesmo nossos pais já saberiam de algo, você não acha? E, conseqüentemente, nós já saberíamos dos boatos também!

Mas Leonardo, mais do que a irmã, não podia negar o que tinha visto. Por isso, continuou sua ronda diária focando a ponta do seu telescópio para aquele quarto obscuro do outro lado da rua. Aquelas cortinas, até aquele exato momento, não mais foram abertas.

Foi na mesa do jantar sob os olhos de reprovação de Leonardo que a irmã resolver comentar o assunto diante dos pais.

— Não acredito que possa haver um adolescente preso naquela casa — retorquiu Senhor Custódio — conheço o Senhor Almond desde que sua mulher, a Senhora… — parou por um momento pensativo.

— Leda, acho que era Leda — ajudou Dona Eulália.

— Sim, sim, era Leda, Senhora Leda! — continuou Senhor Custódio — Sei que nunca vi aquele velho sorrir ou mesmo cumprimentar alguém, mas sempre senti que ele poderia ter mudado depois da morte da esposa. Agora, por mais rabugento que ele possa ter se transformado, prender um adolescente dentro de casa, não, o Senhor Almond não teria capacidade para isso, muito menos idade para tanto. No mínimo, o rapaz abriria uma daquelas janelas enormes e simplesmente gritaria pedindo socorro. Caso fosse um parente doente sob os cuidados do velho, as janelas pediriam para estar abertas e com certeza nossos fofoqueiros de plantão já teriam espalhado a notícia para todos os cantos do bairro.

Em silêncio, Leonardo concordava em sinal de respeito, mas não se dava por vencido. Sua irmã olhava para ele e com um sorriso cínico balançava a cabeça mostrando o quanto estivera certa todo este tempo. A conversa sobre as possíveis loucuras do Senhor Almond continuaram em tom de piada pelo resto do jantar. Sem estar convencido, Leonardo terminou sua refeição, pediu licença e subiu para o seu quarto empurrando mais uma vez seu telescópio para bem perto da janela.

(Continua na próxima semana…)